Três estudos recentes apontam para quão ampla, bizarra e potencialmente devastadora as mudanças climáticas são para a vida na Terra. E, até agora, só presenciamos a elevação de 1ºC da temperatura média da Terra (considerando a temperatura observada no planeta no período imediatamente anterior à Revolução Industrial, marco da atual escalada de lançamentos abusivos de gases de efeito estufa na atmosfera, com consequente e acelerado aumento das temperaturas terrestres).

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As mudança climáticas estão se tornando rapidamente uma crise que desafia hipérboles.

Apesar de todo o som e fúria daqueles que negam as mudanças climáticas, dos políticos que se auto-iludem e de um público global bastante confuso sobre a questão, a ciência por trás das mudanças climáticas é sólida, enquanto os impactos – observados em todos os ecossistemas do planeta – estão ocorrendo mais rápido em muitas partes do mundo que até mesmo os cientistas mais pessimistas haviam previsto.

Diante de tudo isso, é lógico supor que a vida na Terra – os milhões de espécies que coabitam nosso pequeno pedaço de rocha no espaço – seria impactada. Mas ainda nos sentimos angustiados quando percebermos que não se trata apenas de ursos polares; não é apenas sobre recifes de corais e tartarugas marinhas ou lebres-assobiadoras e pinguins; É sobre praticamente tudo – incluindo nós.

Três estudos recentes ilustram como as mudanças climáticas já afetam de modo generalizado a vida em nosso planeta.

“É razoável sugerir que a maioria das espécies na Terra foram impactadas pelas mudanças climáticas de uma forma ou de outra”, disse Bret Scheffers, da Universidade da Flórida. “Algumas espécies são impactadas negativamente e algumas espécies são positivamente impactadas.”

Scheffers é o principal autor de um emblemático estudo científico, publicado o ano passado, que descobriu que o aquecimento atual (apenas um grau Celsius) já deixou uma marca evidente  em 77 de 94 diferentes processos ecológicos, incluindo genética das espécies, respostas sazonais, distribuição global e até a morfologia – ou seja, características físicas, incluindo o tamanho e forma do corpo.

As salamandras da floresta estão encolhendo nos Montes Apalaches; o Maçarico-de-Bico-Comprido do Ártico está gerando filhotes com bicos menores, o que está levando a dificuldades para a sua sobrevivência. Marmotas e martas nas Américas estão ficando maiores em face a épocas de crescimento mais longas, enquanto os esquilos alpinos do Parque Nacional de Yellowstone estão vendo a forma de seus crânios mudar devido à pressão do clima.

Quando se trata de genética, a vida sob o nosso novo regime climático, prova ser ainda mais estranha. A genética do salmão rosa está evoluindo para migrações precoce – com menos salmão codificando seus genes para migrações precoces. Ao se dirigir para o norte, o esquilo voador do sul começou a hibridar com o esquilo voador do norte. A pulga da água (daphnia) tem visto a sua genética mudar em apenas algumas décadas para responder a temperaturas mais altas da água.

Mas o fato de tantas espécies estarem passando por mudanças genéticas não significa que elas estejam se adaptando com sucesso ao nosso mundo mais quente.

“Em muitos casos, a diversidade genética está sendo perdida devido às mudanças climáticas, não apenas na natureza, mas também em recursos de que os humanos dependem, como plantações e madeira de corte”, disse Scheffers. “É importante não confundir as respostas das espécies  à adaptação como um indicador de que tudo ficará bem.”

Os resultados a que chegaram Scheffers e seus colegas são complementados por um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change em fevereiro 2017, que descobriu que 47% dos mamíferos terrestres e 23% das aves já sofreram impactos negativos em razão das mudanças climáticas. Ao todo, cerca de 700 espécies apenas desses dois grupos estão se debilitando sob as alterações do clima, de acordo com essa pesquisa.

“Tem havido um enorme número de não-notificação desses impactos”, disse o co-autor James Watson, da Universidade de Queensland/Austrália, em comunicado à imprensa, apontando que a Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, no original em inglês e em francês) só considera sete por cento dos mamíferos e quatro por cento das aves como ameaçadas pelas alterações e condições climáticas severas. A IUCN muitas vezes se arrasta atrás das descobertas científicas mais recentes – muitas espécies esperam décadas por uma atualização, enquanto a maioria das espécies na Terra nunca foram avaliadas.

Nos cenários mais desfavoráveis, as espécies estão simplesmente desaparecendo.

Um terceiro estudo – este na (plataforma) PLOS Biologia – descobriu que mais de 450 plantas e animais sofreram extinções locais devido às mudanças climáticas. A extinção local, como seu nome indica, não significa que as espécies tenham desaparecido para sempre, mas que elas desaparecem de uma parte de seu habitat. Por exemplo, o musaranho do solo árido (menor mamífero do mundo) viu seu habitat diminuir agressivamente à medida que o seu lar, a tundra, tornou-se mais quente.

“Se o aquecimento global continuar, as espécies que não podem mudar ou mover-se rapidamente podem ficar globalmente extintas”, disse o autor do estudo, John Wiens, da Universidade do Arizona.

Tais extinções globais já aconteceram. No ano passado, os cientistas descobriram que o Bramble Cay melomys – uma espécie de roedor australiano, similar ao rato – foi extinto recentemente (foi visto pela última vez em 2007) devido à elevação dos mares e, consequentemente, inundação de sua pequena ilha de coral.

É o primeiro mamífero com confirmação de que foi empurrado para a extinção devido inteiramente às mudanças climáticas – ou, pode-se dizer, ao nosso vício nos combustíveis fósseis.

O estudo de Wiens também descobriu que as extinções locais estam acontecendo mais nos trópicos do que nas áreas temperadas. Isto é preocupante uma vez que os trópicos detêm a vasta maioria da biodiversidade do mundo, com muitas espécies dos trópicos ainda sem serem estudadas ou mesmo descobertas por cientistas.

Mas as mudanças vão além de simples extinção.

“Agora, temos evidências de que ecossistemas inteiros, alguns do tamanho de estados inteiros nos EUA, estão se transformando em resposta às mudanças climáticas”, disse Scheffers. Ele apontou para as florestas de algas marinhas que, segundo ele, “estão morrendo” e sendo substituídas por ecossistemas rochosos e menos produtivos.

Compostas de algas marrons gigantes, as florestas de algas marinhas são tão altas quanto árvores, fornecem viveiros essenciais para peixes, protegem as áreas costeiras contra a piora das ondas de tempestade, armazenam grandes quantidades de carbono e fornecem casas para espécies como as lontras marinhas. Mas o aquecimento das águas combinado com a acidificação do oceano está cobrando seu preço.

Scheffers espera por mais “mudanças no ecossistema”, termo usado pelos cientistas para descrever o fenômeno, no futuro. As florestas nubladas estão em risco de se transformarem em pastagens de alta altitude, recifes de corais de se tornarem ecossistemas dominados por algas e o mar congelado do Ártico em se transformar em mar aberto.

“Dado o que estamos vendo agora, apenas imagine o que acontecerá com todas essas espécies quando as temperaturas aumentarem quatro ou cinco vezes essa quantidade”, disse Wiens.

Se a sociedade global não acabar com  o seu vício em combustíveis fósseis – e rápido – os cientistas estimam que as temperaturas podem subir 4-5 graus Celsius até o final do século. Tal aumento não seria simplesmente catastrófico, mas apocalíptico.

“Uma coisa certa é que essa resposta global (de espécies e ecossistemas) às mudanças climáticas aponta para um futuro cada vez mais imprevisível para os seres humanos”, disse Scheffers.

Mais da metade dos seres humanos do mundo vive hoje em cidades – mas isso não nos tornará imunes às mudanças que ocorrem na natureza. De acordo com a pesquisa de Scheffer, os seres humanos verão uma queda na produtividade de várias culturas ou espécies de madeira de corte, uma drástica perda na pesca marítima, um aumento potencial de novas doenças, assim como, a disseminação de doenças para lugares que em elas nunca se manifestaram antes. Enquanto isso, o declínio dos recifes de corais, das florestas de algas marinhas e dos manguezais pode levar a mais perdas de vidas humanas em tempestades alimentadas pelo clima. A perda da biodiversidade global também terá repercussão em sociedades ao redor do mundo, de ecossistemas menos produtivos a impactos que simplesmente não podemos prever hoje.

“Eu não fiquei surpreso”, disse Scheffers sobre sua pesquisa. “Mas fiquei bastante alarmado. A extensão dos impactos é vasta e e tem sido sentida em cada um dos ecossistemas na Terra “.

E tudo isso é alarmante? Com certeza. Mas já passou da hora de acionar os alarmes – eles deveriam ter começado a soar nos anos 80 e deveriam ter sido ensurdecedores no começo dos anos 90.

Tudo isso significa que nada pode ser feito? Claro que não.

“Governos e grandes organizações podem investir e comprometer-se a reduzir as emissões de carbono e a proteger os ecossistemas naturais que aumentam a resiliência às mudanças climáticas não só para a natureza, mas também para as pessoas”, disse Scheffers. “Estes incluem grandes áreas de florestas conectadas que resfriam o clima local e regional, corais intocados e recifes de ostras que não só fornecem comida, mas reduzem as ondas de tempestade, e bacias hidrográficas bem manejadas que manterão água doce em condições e quantidades adequadas”.

Wiens concorda, mas acrescenta que “é preciso haver mais esforços, mais ousados e em larga escala, para que se possa reduzir o carbono que já está na atmosfera”.

Várias empresas já produzem tecnologias que fazem exatamente isso: retiram o carbono da atmosfera. Mas, até agora, a falta de dinheiro e de apoio atrasaram o lançamento de tais dispositivos em larga escala.

Enquanto isso, os pesquisadores concordam que o Acordo de Paris – o único acordo global para combater as mudanças climáticas – deve ser protegido.

“A sabedoria resulta da combinação da verdade com as crenças. Há um consenso científico global em torno das mudanças climáticas e dos seus impactos na natureza e nos seres humanos. É verdade que as mudanças climáticas terão impactos devastadores na saúde humana e na qualidade de vida “, disse Scheffers, observando que o atual flerte da Administração Trump com saída dos EUA do Acordo de Paris” não é apenas uma decisão pouco sábia, como perigosa”.

A presente versão é uma livre tradução da matéria original, realizada pelo estagiário da GEIAT, de Belo Horizonte, Pedro Henrique, sob coordenação de Ana Caetano, Especialista em Gestão Pública (FGV), Analista de Políticas Públicas, Comitê Municipal Sobre Mudanças Climáticas e Ecoeficiência – CMMCE, Gerência de Informação e Acompanhamento Técnico – GEIAT, Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SMMA

Fonte: https://www.theguardian.com/environment/radical-conservation/2017/apr/05/climate-change-life-wildlife-animals-biodiversity-ecosystems-genetics